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quarta-feira, outubro 08, 2008

Sobre a barriga do IReport: quem, afinal, vai fazer jornalismo?

Desde que o Caio me mandou o link, estou aqui matutando sobre a "barriga" que o site colaborativo IReport e, por tabela, a CNN tomaram com a divulgação de um suposto infarto sofrido por Steve Jobs na última sexta.

Para quem não se lembra o IReport é um site auto-denominado jornalístico que permite a publicação de um conteúdo sem aprovação prévia pela CNN, sua proprietária. Veja a tradução do "manifesto" bancado pela emissora no post CNN: fim da mediação jornalística? (leia também os comentários, abundantes graças à repercussão da Ana Brambilla).

A informação foi publicada pelo usuário Johntw (já eliminado do site), em sua primeira participação. Ficou apenas 20 minutos no ar, o suficiente para espalhar via blogs e microblogs uma onda especulativa - o blog Silicon Alley Insider faz uma interessante retrospectiva do processo viral, que repercutiu inclusive no valor das ações da Apple.

Este mesmo blog, aliás, foi um dos que repassou a informação equivocada e, num outro post, justificou a decisão de repassar a informação sem confirmá-la. Um trecho interessante:
We knew that our readers would want to know about the story and evaluate it for themselves. So we did what we did what we usually do in such cases: We published a post describing the iReport story and noted that, true or false, this was a big moment for citizen journalism.
A informação foi alterada quando uma fonta da Apple desmetiu o fato. Deveria o blog ter tirado esperado a confirmação do fato antes de publicá-lo? Eles mesmos respondem e se defendem:

Most of our readers were grateful that we drew their attention to the iReport story and very grateful when we reported that the story was false. A small, vocal minority, however--including some members of the mainstream media--believe we should have waited to comment on the iReport story until we had heard back from Apple.

We respectfully disagree.

(...)

Sometimes this information is fact. Sometimes it is rumor or scuttlebutt. Sometimes it is speculation. Always it is information that we believe is credible or interesting enough to bring to our readers' attention.

Quer dizer: na avaliação dos editores do blog Silicon Alley Insider (e de tantos outros que repercutiram o fato), rumor e especulação também são informações.

Isso para o jornalismo é grave.

Pergunto:

onde estão os profissionais?

Se todos querem agir como usuários comuns (com os do IReport), quem vai mediar as relações informacionais?

Como alguém pode afirmar que o "jornalismo cidadão" falhou (como disse Publishing 2.0) em seu "primeiro teste significativo" se eles mesmos não fizeram jornalismo, pelo com rigor mínimo que ainda diferencia esta prática de outros modelos de produção de conteúdo?

Outra pergunta levantada: o fato arranha a imagem e a credibilidade da CNN?

Para Sarah Perez, do ReadWriteWeb, e Tiago Doria, sim.

Acho que a CNN valhou ao rotular seu site como jornalismo colaborativo.

É um site de conteúdo gerado pelo usuário (UGC), onde as falhas são normais e esperadas.

Esta é, aliás, a reflexão do artigo The Problem with Citizen Journalism, do Poynter Online (via Fábio Malini).

Estranha-me, repito, a viralização irresponsável do relato por profissionais e a condenação das práticas colaborativas.

domingo, março 30, 2008

CNN: fim da mediação jornalística?

Motivado pelo artigo Behind CNN's New Citizen Media Site, do Poynter Institute, resolvi enfim dar uma olhada mais cuidadosa na recente iniciativa de user generated content da CNN, o IReport.

Sem edição e sem filtro, como proclama seu slogan, funciona como um YouTube da emissora de TV. Os vídeos mais importantes e destacados são veiculados na programação tradicional e ganham no site a tarja "On CNN".

Interessante observar que a emissora não vincula sua marca diretamente ao site de UGC, por exemplo através do tradicional menu superior de navegação.

O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi o texto que justifica a abertura do site a publicações sem moderação jornalística (na versão anterior, apenas o conteúdo aprovado - cerca de 10% - era liberado para o público). Ainda que seja tanto publicitário, o texto representa uma ousada tomada de posição por parte da rede de TV mais poderosa do planeta. É quase um manifesto.

Fiz uma livre tradução do texto, abaixo:

E se nós voltássemos este site para você?

E se permitissemos as pessoas publicarem vídeos brutos e contarem histórias que você nunca veria na CNN?

E se tudo isso tivesse um discurso politicamente incorreto?

E se não nos preocupássemos se as histórias estão equilibradas?

E se, ao invés de nós confirmarmos todas as nuances, confiássemos em você para determinar a acuidade (ou não) de uma informação?

E se criássemos um site onde a comunidade - e não a CNN - se tornasse o "O Nome Mais Confiável das Notícias?"

Assim, nós desenvolvemos o IReport.com. Não brinque conosco. Este conteúdo não é vetado ou lido anteriormente pela CNN. É sua plataforma. Em alguns meios jornalísticos, isto é considerado perturbador, até mesmo controverso! Mas nós sabemos que o mundo das notícias está mudando. Nós sabemos que mesmo aqui na CNN nós não podemos estar em todos os lugares, todo o tempo seguindo todas as histórias que importam a você. Assim, te demos o IReport.com. Você vai programá-lo, vai policiá-lo; você vai decidir o que é importante, o que é interessante, o que é notícia.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Citix: Recife dos crimes e do carnaval

"Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil".
A frase cunhada para o RJ parece, mais do que nunca, adequada à capital pernambuca.

Quase simultaneamente ao anúncio de Recife como uma das cidades com maior índice de homicídios do Brasil, o c.e.s.a.r, centro de excelência de dar inveja a nós do Sul Maravilha, anuncia o lançamento do citix.net, ou city information exchange network.

Trata-se de um mashup do Google Maps. Assim como o WikiCrimes, tem o objetivo principal de mapear de forma colaborativa os delitos cometidos na zona urbana (o projeto é uma parceria com o Programa de Prevenção de Crimes do Ministério Público Federal).

O interessante é que a proposta vai além. Segundo o site, "o CITIX é a nossa cidade em movimento, onde você pode localizar, marcar e compartilhar informações sobre eventos, lugares, instituições, segurança e serviços públicos". Portanto, estão lá também os prédios públicos e as opções de entretenimento, incluindo um roteiro do carnaval.

Segundo Silvio Meira, (já em ritmo de folia), "em duas ou três semanas, vamos anunciar mais duas grandes cidades onde o sistema estará disponível".

A dica veio do Bernardo Esteves (de quem aproveito para cobrar atualizações no blog!).

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Digg altera "algoritmo editorial"

O fundador do Digg, Kevin Rose, anunciou no blog oficial uma mudança no algoritmo que define que submissões ganharão destaque na página principal do site.

Pelos novos critérios, usuários com menos tempo de colaboração seriam privilegiados, pois foi reduzida a média de submissões e votos necessários para se alcançar destaque na capa.

Com menos visibilidade, os usuários veteranos e mais ativos, responsáveis por um grande número de destaques, logo se revoltaram contra a alteração. Entre as críticas, denúncia de manipulação editorial, falta de transparência e autonomia para a comunidade que se formou em torno do site.

Experiência semelhante à troca de um editor de capa de jornal, não? Os repórteres antigos preocupam com a nova política editorial, os novatos animam-se com a possível renovação...

P.S. - Os links acima remetem para sites em inglês. Para português, sugiro a matéria traduzida Digg altera o algoritmo responsável por destaque de conteúdo.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

UGC (na TV Digital, inclusive)

UGC (User Generated Content, ou Conteúdo Gerado por Usuários) é uma sigla que, após a notícia de ontem, certamente será frequentemente citada por aqui nos próximos tempos, já que a Wikipédia é o exemplo de produção colaborativa sem intermediários previamente institucionalizados (jornalistas ou publicitários, por exemplo).

A forte tendência de abrir espaços para o conteúdo produzidos por pessoas comuns (que podem ser tratados como cidadãos engajados, consumidores, engraçacinhos interessados no sucesso viral etc) coincidentemente é a matéria de capa da edição 3 da revista Meio Digital: OU VOCÊ ESTÁ COM ELE, OU ELE ESTARÁ CONTRA VOCÊ. Vale a leitura.

Interessante notar com esta tendência não se limita à web. Uma experência em Santa Catarina incentivou a produção de conteúdo audiovisual por alunos de escolas públicas, responsáveis por todo o processo de gravação, edição e até envio dos arquivos para as emissoras UFSC TV e TV Cultura de Santa Catarina, que veicularam as produções. O projeto Marint aconteceu em 2004, como parte do doutorado do prof. Fernando Crocomo, e recentemente virou o livro TV Digital e produção interativa - a comunidade manda notícias.