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terça-feira, janeiro 27, 2009

Jornalismo de links e os limites da concorrência

Uma empresa indica um produto do concorrente, e este a processa?

Estranho, não?

É o que está acontecendo nos EUA, onde o grupo GateHouse Media entrou na justiça contra a New York Times Co. com a alegação de violação de copyright e propaganda enganosa, entre outras irregularidades.

Tudo isso porque um dos jornais que pertencem ao NYT, o The Boston Globe, tem republicado chamadas e leads (seguidos de links para a matéria original) de um site local do grupo GateHouse, o Wicked Local.

Os acusados defendem-se argumentando que o Boston.com (site hiperlocal do The Boston Globe) é um agregador de conteúdos sobre a cidade e a indicação de links é uma das práticas mais comuns da internet, a começar pela busca Google e por blogs.

A disputa parece-me mais um capítulo da disputa entre a velha e a nova mídia - no caso, entre velhas empresas e seus esforços e limitações de adequação aos novos tempos.

Ao ler sobre o caso me lembrei dos processos movidos contra o agregador Google News pela Agência France Press e pelo grupo belga Copiepresse, que o acusaram de violação de direitos autorais.

Para "resolver" a questão, o Google deixou de indexá-los - um tiro no pé do departamento jurídico das duas empresas! (no caso da AFP, houve um acordo em 2007).

Vale a leitura detalhada do post A Danger to Journalism, do Machine 2.0. Um trecho sobre a importância do link:

Links are the bloodstream of the web, carrying its oxygen. Links are how original journalism will get audience, traffic, branding, attention, credit, and monetization. Links are a gift and a courtesy. Links are the means to better-informed communities. (...) Links are also the key to specialization and efficiency; they will allow a local publication to do local well and link to other stories rather than rewriting them: Do what you do best, link to the rest.


Separei mais algumas indicações sobre o assunto, que muito me interessa:

Sobre a tendência de linkar sites de empresas concorrentes: Extra, Extra! O “tabu da concorrência” foi quebrado.

Ainda em português, Organizações aderem ao "jornalismo de links" e Jornalismo interativo: links não bastam.

Um blog muito bacana sobre o tema é o Publish 2.0 - The (R)Evolution of Media. Está lá uma apresentação do que é Link Journalism - há inclusive uma ferramenta para isso.

Alguns posts que destaco:

Digital Transition: From Redundant News Coverage To Original Link Journalism

Permanent Link to Networked link journalism: A revolution quietly begins in Washington state

terça-feira, dezembro 09, 2008

Erros e acertos da agregação de conteúdo pela BBC

Lembra da discussão sobre agregação de conteúdo e jornalismo que propus aqui na semana passada?

Se gostou, recomendo (muito) a leitura do artigo Mumbai, Twitter and live update, do editor do site da BBC, Steve Herrmann.

Ele faz uma análise da cobertura em tempo real proposta pelo veículo, destacando os acertos e os erros do processo de incorporação de conteúdo gerados pelos usuários sob a chancela da BBC.

No cerne da questão, a apuração jornalística.

Não deixe de ler, inclusive pelo exemplo de humildade que um editor deveria sempre ter.

Outro post relacionado: Sobre a barriga do IReport: quem, afinal, vai fazer jornalismo?

terça-feira, dezembro 02, 2008

Entre o jornalismo e a agregação de conteúdo

Qual a diferença entre as práticas jornalísticas e as interfaces de agregação de conteúdo (no modelo live streaming, por exemplo)?

Até que ponto a incorporação de ferramentas como o Cover it Live (ou mesmo a transmissão experimental do Roda Viva) podem esvaziar um discurso e projetos jornalísticos marcados por escolhas editoriais e pelo trabalho criterioso de edição de um profissional (ou não!) da área?

Provocado por alguns alunos céticos ou entusiastas demais, e também após um improvisado debate após a apresentação da Gabriela Zago na ABCiber, venho pensando nesta questão há algum tempo.

Uma boa situação de análise: a intensa publicação de conteúdos por usuários comuns nos momentos mais críticos da tragédia em Sta Catarina e dos atentados terrorista em Mumbai, na India.

O Tiago Doria registrou o AllesBlau (blog com notícias de Blumenau), Mahalo (página especial sobre os ataques na India) e o liveblogging de estudantes holandeses como exemplos de hubs de informação e curadoria de conteúdo (grifos dele).

Como registrei nos comentários lá, não sou contra a iniciativa de agregação de conteúdos externos e/ou colaborativos, em sites jornalísticos inclusive, mas acho que a mediação clássica do jornalista (o que é ou não notícia para um determinado veículo, por exemplo) não pode ser abafada por fluxos contínuos de informação. Mais do que credibilidade, me refiro a escolhas que um veículo TEM que fazer, principalmente numa era de excessos informacionais como a atual.

Segundo Doria, Ariel Gajardo, um dos criadores do AllesBlau, disse que no blog “não existem amarras editoriais”. A palavra amarras nos remete a censura, ocultamento etc. Se for assim, ok.

Mas entendi a palavra como um sinônimo de filtro, isto é, o blog não teria filtros editoriais. Isso pode ser um mérito, ou uma necessidade, para um veículo surgido numa situação de exceção com a de Sta Catarina, mas é um suicídio editorial em tempos normais.

O que diferencia um veículo e cativa o público é justamente seu filtro editorial, não?

Fazem coro a esta argumentação dois textos publicados recentemente: em Jornalismo é mais do 140 caracteres, Luis Weis, ao reividindicar o papel a ser cumprido pela mídia impressa nestas situações, a contrapõe aos microblogs e ferramentas afins:
Quanto mais esse tipo de recurso se propagar, levando a patamares inimagináveis há poucos anos o fluxo e a amplitude da informação tópica, pontual – de varejo, em suma, por importante que seja para os interessados – mais a imprensa terá de oferecer o que está além do alcance dos Twitters deste mundo: a informação no atacado.
Em entrevista ao site Hipercritico.com (e linkada pelo GJOL), Rosenthal Calmon Alves disse uma frase que sintetiza esta discussão (em negrito):
yo soy muy optimista en relación a la importancia que el periodismo va a tener en el futuro, porque cuando todo el mundo habla, nadie habla. La voz del periodista profesional, al lado de la voz del periodista no profesional, va a tener una importancia central que va a iluminar el camino de la información.

Quer mais? Dê uma olhada nos comentários da instigante pergunta do blog TwiTip: Twitizen Journalism: Can Twitter Be a Real News Platform?

Meio off-topic: Registrei no Twitter, mas vale citar de novo a iniciativa do jornal Diário do Litoral que, impedido de circular por causa das enchentes, criou logo um blog e um canal no Twitter e manteve-se na ativa. E sem perder o bom humor, uma característica do Diarinho, dizem os leitores habituais. Não foi nenhuma iniciativa inédita, sabemos, mas louvável.